Um trem congelado
As vezes ne sinto dentro de um trem, mas com uma diferença dos trens normais: eu posso escolher a direção, a velocidade e a hora da partida. Mas eu congelo o trem. Eu deveria ir adiante, deveria andar. Mas cada passo me assombra com o fato de ter que lidar com a consequência.
Isso é o que chamamos de responsabilidade. Eu sempre permiti que os outros decidissem para mim: era cômodo. Mas depois virou uma prisão: eu não era quem eu queria ser e os outros me tornaram um reflexo de suas expectativas e sonhos inacabados. Agora, a porta da gaiola está aberta, mas tenho medo de sair, tenho medo de mim mesma, tenho medo da linha de chegada. Então congelo o trem.
Num trem congelado não há acidentes ou culpa por decisões que mesmo certas foram mal vistas. Mas nesse trem congelado há um problema: eu estou nele e congelo junto a cada segundo... Vivo a base de reticências já que não inicio a viagem. Vivo nas dúvidas já que não decido o caminho. Vivo no medo, já que estou parada. E morro aos poucos, pois estou congelando dentro de um trem por medo de ser eu mesma só por um instante.
É aterrorizante ser quem você é, não por causa do que os estranhos vão achar, mas por causa do que as pessoas que mais te amaram um dia vão dizer quando verem quem você é. E quando tento descongelar, vivo no medo de quem será o próximo a tentar tirar pedaços do meu eu, tirar pedaços do meu trem, tirar pedaços de quem eu realmente sou e quão dolorido será isso.
Então morro no trem congelado e me congelo no trem morto.
Mas espero que algum dia eu possa ver que não há nada melhor do que desfazer cada fragmento de gelo e viver, mesmo que falhando. E viver, mesmo sabendo que muitos irão querer congelar meu trem. E viver. Porque não há nada melhor que ter o seu eu falso morto e o seu eu real fora da gaiola e viajando mesmo com medo.